Ah, os aleluias!

Tenho querido lhe escrever com toda a sinceridade, mas cada vez que inicio uma carta, sabe-se lá por que razões, disperso-me tecendo comentários sobre as condições atmosféricas, a relação dos fenômenos meteorológicos e o posicionamento relativo dos astros com meu estado físico e emocional (observo uma aranha carregando um cupim voador para sua toca e isso produz em mim aquela sensação prazerosa de assistir a execução da vingança sem sujar as mãos), praguejo contra os insetos que tanto me tem importunado, ou então passo a descrever as atividades domésticas nas quais estive envolvido durante o dia todo ou nas últimas horas, tarefas enfadonhas e improlíficas como lavar as panelas encardidas de comida velha ou varrer as folhas da goiabeira que se acumulam em frente ao degrau da porta da cozinha, vasculhar entre as pedras e esmagar caramujos miúdos. Termino assim, sem nada ter concluído, o primeiro parágrafo e dissimulo uma satisfação de tarefa bem encaminhada e objetivos parciais atingidos, mas aos poucos minha face vai se enrugando, os músculos voltam à posição de repouso e as pálpebras e as pestanas começam a pesar. Tomo um fôlego de estourar os bronquíolos e prometo ao deuses abordar de vez o assunto de interesse. Volto-me com autoridade para o papel, como um comandante de tropas a dar uma ordem capital, mas nesta hora surge algum bom subterfúgio ao qual me agarro, chama-me a atenção aquela trepadeira cucurbitácea que cresce pálida e desmilinguida no emaranhado de seus frágeis braços pelo varal que serve mais para o pouso das moscas que para a exposição das roupas, depois aquela rachadura na parede caiada da casa ao lado, grudada ao meu muro, onde se escondem as formigas e as lagartixas menores, e que me deixa apreensivo diante da possibilidade da derrocada, e então surgem outras matérias sem relevância aparente, a não ser pelo fato de representarem um alívio provisório ao peso angustiante que se assenta sobre meus ombros e omoplatas.

Releio o que ficou gravado no primeiro agrupamento, que por definição deveria apresentar o desenvolvimento de uma idéia com frases intimamente relacionadas entre si et cetera, e envergonhado decido que o bem de se fazer é implorar para que desconsidere as divagações ou que as encare como um exórdio tangente e difuso ou um intróito surrealista, e que caberia a você decifrar os códigos do meu automatismo psíquico, mas valha-me são bonifácio, estou mais uma vez circulando e me afastando e dançando no cascalho enlameado das veredas, reconheço todo o ridículo de meus pensamentos e a incapacidade de clareza objetividade análise e composição. Deveria sim, começar tudo de novo, desta vez da forma correta, numa carta clara, tratando apenas do pertinente e imprescindível, numa folha limpa, destilando meu melhor laconismo. Mas que sei eu disso para me atrever. Nada sei do que tenho ou devo ou preciso escrever e de que forma realizar aquilo de que sei apenas que precisa ser feito e nada mais, nem o que é, nem para que serve, nem do que se trata, nem como deve parecer, esse maldito dever que me foi atribuído sem que me fosse permitido o acesso aos códigos e mapas.

Para livrar meu cérebro de tanta inutilidade e salvar o que me resta da vida, decido me esticar na rede, tomar mais um mate, abrir uma cerveja, clarear as idéias e deixar que o tempo, o ócio e a falta do que fazer me digam o que tenho assim de tão importante para dizer-lhe. Creia que me empenhei nesta sublime tarefa, e cheguei a descobrir, depois da cerveja, que havia anos cultivava o hábito de acender e fumegar cigarros e que agora deveria buscar um daqueles maços que ficam escondidos na caixa de macarrão na estante da sala e fechar os olhos para descansar de todos os meus devaneios nada produtivos.

O que tenho para lhe dizer, no entanto, parece que conseguirei, pelo menos em parte, desta vez. Creio que nas tentativas anteriores nada estava claro (ainda não está, e peço que tenha paciência com o excessivo uso dos advérbios de dúvida e todas as imprecisões e reticências, raciocínios circulares, conclusões duvidosas). Quero encontrar a melhor maneira de trilhar esta via nebulosa sem torna-la ainda mais obscura, mas as imagens de minha pessoa estirada na rede com um cigarro à boca, os mosquitos e as aranhas, o sol da tarde e o mormaço pegajoso voltam a cada nova linha, tentado derrubar meu circo como touros loucos indomáveis na arena. Oh sim, estou no meio do picadeiro e você me olha ansioso e perscrutador, você platéia solitária, fumegante e impaciente à espera da revelação do truque. Não há holofotes, apenas uma claridade dirigida, vindo de algum lugar indefinido, uma mancha cor de nada translucidando o espaço que ocupamos e o caminho imaginário que nos une teu olhar ao meu espetáculo. Estou sentado no chão do picadeiro sobre as pernas, desenhando com uma vareta na serragem misturada com areia e pequenos pedaços de merda seca dos cavalos, mas a figura não se forma e não me decido a levantar, apesar de saber, sem olhar, que aguardas pelo movimento decisivo. Sei que você observa e, agora, vendo esta cena em flash back daqui onde estou, entendo que o que lhe aflige é o temor de que seu cigarro acabe, porque você sabe que terá dificuldade em encontrar alguma venda aberta a esta hora. Vejo no movimento nervoso e quase imperceptível dos teus lábios o vapor que sobra das imprecações que saem como pombos assustados por tiros de caçadores. Não sei se estou realmente escrevendo ou se isso tudo não passa dos meus pensamentos esfumaçados no balanço silencioso da rede. Parece que o sol me atinge e esquenta a cabeça, agora que está mais inclinado a oeste.

(Acabo de queimar três cupins com a brasa do cigarro. Você acha realmente que isso é crueldade? Depois esmaguei vários com o pé. Vou lhe explicar como esses animais funcionam: eles vivem dentro das tábuas da minha casa. São seres sociais, vivendo em comunidades geralmente populosas, formadas por indivíduos ápteros e alados. Os bichinhos são vegetarianos, graças a deus, mas se alimentam de objetos de madeira ou compensado, de papel, causando sérios prejuízos. Os que moram comigo são xilófagos, possuindo protozoários intestinais que digerem a celulose. Passam o tempo todo comendo, ou destruindo, depende do ponto de vista. Passavam o tempo todo dentro das minhas tábuas, mas chegou o dia em que sentiram a necessidade de procriar e constituir uma nova família. Então desejaram e fizeram nascer asas – até então eles são apenas vermes com patas e antenas – o que é perfeitamente compreensível, quero procriar, quero ter asas. O que impressiona é que a idéia nasce em todos ao mesmo tempo, então eles nos proporcionam um espetáculo: eu chamei de ‘a revoada’, mas os românticos enchem o peito de mel para dizer que se trata do vôo nupcial, e os malditos insetos, agora alados, tanto o macho quanto a fêmea, são designados aleluias [do hebraico hallelu Yah, ‘louvai ao Senhor’]. Depois de fecundadas (sabe o que isso significa, eles ganharam asas para sair e foder, como os filhos de papai ganham um carro) as fêmeas vão formar novas colônias. Eu fiquei aterrorizado com minha primeira experiência, estou falando da revoada dos isópteros.

Estava no quarto e percebi que por uma fresta sobre a porta os pequenos desciam. Mais que depressa compreendi que chegara o momento da minha revanche, pois que por muitos dias tinha-os procurado, sem que eles se apresentassem para a batalha. Com uma seringa injetava veneno nos orifícios por onde saia o resultado de sua digestão, mas nunca os tinha encontrado em pessoa. Agora poderíamos dar início ao confronto e rapidamente equipei-me com meu pulverizador. Tinha comigo a certeza da vitória, mas amarguei a desilusão e o desespero. Eles não morriam com o veneno. Para tanto era preciso esmaga-los, o que não constituiria um grande problema se eles se reduzissem ao número do milhar. Os aleluias eram numerosos como as estrelas de setecentos céus e saíam de todo lugar. Eu corria do quarto para a sala, atirando alpercatas nos voadores e pisando nos que andavam namorando pelo chão, esmagando com os dedos os que buscavam a luz nos vidros da janela. Luta inglória, mas eu continuava a aspergir o veneno. Qual foi meu espanto quando fugindo da ação tóxica de minha ineficácia bélica, busquei o alívio dos ventos da varanda: todo o ar estava infestado de cupins voadores que saíam do telhado de minha casa, e olhando para o lado, do telhado da casa vizinha, e olhando para os outros quadrantes, saindo dos telhados de todas as casas, aleluia aos quatro ventos. Eu estava irremediavelmente derrotado, ridículo com meu pulverizador amarelo pendendo da mão esquerda. Sentei-me apoiando as costas contra o muro, sentindo as pedras do reboco pressionando suavemente minha carne. Acendi um cigarro e sabia que trégua era uma palavra que só existe na língua dos homens. Pensei várias outras palavras como comiseração, contemplatione, resignação.

Só alguns dias mais tarde consegui compreender a verdade desta história, não na sua totalidade, mas na parte que me toca e que me força a aceita-la como catastroficamente inevitável. No entanto, ainda fiz alguns esforços para evitar que os estragos fossem maiores e para eximir minha alma da culpa da covardia. Fui um bravo, na medida racional do possível. E de que adianta a racionalidade, caro irmão, contra essa ordem cosmológica de um desejo e um cio coletivo universal? Durante os dias seguintes eles ainda continuaram a sair de suas tocas, mas em número bem mais reduzido. Diria que estes estão atrasados, por isso merecem a brasa do cigarro. Você acha que é crueldade? Eles estão em todo o lugar.)

Então penso ‘a ficção poderia me salvar, o mistério das entrelinhas e as metáforas poderiam me salvar’, mas por quê? Por que não falar claramente das coisas, diretamente das coisas? Vamos falar das coisas então, Alpheu. Esta máquina de escrever, por exemplo, com suas magníficas articulações, braços, tipos e automatismos. Esta é minha luva de ferro, a manopla que envolve a mão que estendo, mecânica que passa a ser metafísica, fundido no calor matemático da palavra martelada. Ah, esta máquina de escrever, tão silenciosa sobre meus livros velhos, tão bela em seu sono de matéria. Admiro essas coisas que podem passar muito tempo na completa indolência e depois voltam sem esforço à tarefa que as faz ser aquilo que são, sem prejuízo e sem dor. E eu que queria falar claramente das coisas corrompo sua pureza com meu olhar pegajoso e embaçado. Por que por dentro de tudo está a minha mão suja e por fora superfície calejada dessa visão túmido e viciado.

(Estou preservando as lagartixas e as aranhas. São animais admiráveis, mas é incrível como esses caçadores podem ser tão tímidos. Quando me vêem, mais que rápido procuram o caminho de volta para a toca, ou sobem parede acima, cheios medo infundado. Suas presas, por outro lado, esbanjam insolência. Por formarem o maior grupo, talvez. Tem sido a história da sociedade humana também, que podemos esperar dos pobres vermes?)

Veja que falhei mais uma vez. Minha mente está soltando pelos cabelos. Tinha algo para lhe dizer, mas não sei mais o que poderia ser. Talvez isso que escrevi, o que pode ter ficado nas entrelinhas. Não consegui encontrar suas últimas cartas. Devem estar em alguma das caixas de papelão no quarto grande, junto com as ferramentas e o saco de roupas de inverno, mas você ainda não veio me visitar e parece-me escusado falar-lhe do quarto grande ou de qualquer outra parte da casa. Prometo que as encontrarei e voltarei a lê-las. Espero encontrar nelas algum traço de sua imagem. Então conversarei melhor contigo.

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