Rompecabeza - Cap. I

Ao diabo as todas as suas teorias. Fale-me das coisas práticas, de como se faz e como se vive, qual a melhor maneira de transportar pedras, o jeito correto de acentar tijolos, como não arrebentar a coluna e manter a coerência nas frases que escapam pela boca a procura de um gancho de suspensão na parede ou uma rede de caçar borboletas para descansar. É disso que preciso agora mais do que em todos os outros dias que passei rastejando no risco liso da história da minha vida. Saber como se faz a massa de cimento, qual a proporção dos materiais, quantas varas de ferro e qual espessura em polegadas para cada viga, dessas preocupações tenho ocupado meu intelecto e os malditos nervos que prendem minha carne aos ossos e controlam os movimentos dos membros. Você me falava da cor que devo usar na pintura da sala, mas acho um pouco cedo para tomar esta decisão. De qualquer forma aceito sua sugestão, poderá ser mesmo um amarelo Van Gogh, e pretendo mesmo me embriagar neste dia para dar mais vida aos traços e tentar deixar transparecer um a loucura que tenho mantido dentro das caixas no quarto grande, todas aquelas orelhas guardadas, embrulhadas em papel de secar as mãos roubados do banheiro do posto de gasolina. Que deveria fazer com minha imitação dos girassóis? Sim, pendurá-la no galinheiro, porque as galinhas gostam de milho por causa da cor, que é alegre e alimenta. Acho que não ficarão perturbadas com uma natureza morta.

Acabei de voltar do jardim. Na caixa de correspondências encontrei um cartão de Buenos Aires. Aventuras pela terra do fogo, faz lá um frio infernal. Pelo menos desta vez não vieram os conselhos e as psicologias do almanaque de Jung. ‘Estou partindo para Montevidéu. Estivemos na terra do fogo, faz lá um frio infernal (sei que esse maldito foi proposital). Como vão as coisas por aí? Abraços fraternos. PS (sempre vem esse pós alguma coisa, a tua necessidade de negar o fim, a crença mascarada no depois que sempre deve existir) Como vai a construção da casa? E o casamento do Ernesto, como foi?’ Ah, sim, como se importa com os amigos, quanto franciscanismo para com os irmãos, muito admirável sua preocupação. Pois digo que da construção não há novidade alguma. Estamos em falta de braços para a obra, os argonautas todos abandonaram o barco e as ninfas são pura imaginação dos poetas. Falta dinheiro também para executar os planos que fiz. Pra ser sincero, faltam até mesmo os planos. No começo projetava em desenhos quase todo o dia, e a cada novo esboço a casa se tomava nova forma. Fiz um projeto maravilhoso numa noite dessas. A casa teria um porão com adega, um túnel, um poço, um cofre e um esconderijo, com acesso secreto. Acabei desistindo quando passou o efeito do vinho e os papéis todos fizeram um fogo furioso na varanda, perto do canteiro de tomates. Agora não tenho mais idéias nem força. Vou ter de enfrentar as adversidades e os cupins por um tempo. Talvez venha a me acostumar com as coisas como estão.

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