Rompecabeza - Cap. II

Quanto ao casamento do Ernesto há muito que falar, mas contarei apenas o essencial. O que sobrou de tudo foram umas fotos do noivo chorando abraçado às pernas de uma puta da Wiskeria da Ilha. Creia-me, foi um acontecimento funesto, calamitoso. Decidimos que ele deveria ter uma despedida de solteiro, como era costume nos tempos antigos. Não lembro de quem foi a idéia, pois surgiu no meio de algumas garrafas vespertinas de vinho tinto seco e barato naquela cantina da Lauro Linhares. E depois vieram outras, que tivemos que esvaziar para nos encher de coragem. Ernesto nunca tinha dormido com uma puta e estava ansioso e excitado, com aquelas suas tão conhecidas reações somáticos, taquicardia, sudorese, necessidade desesperada de nicotina, risadas descontroladas e palmadas sobre a mesa. Apesar de alterado eu ainda estava bastante consciente de tudo o que acontecia. O italiano rondava a mesa e não estava gostando daquela farra. Para evitar constrangimentos sugeri que fossemos de uma vez. Ele não relutou.

Chegamos cedo. Eu ainda tentava disfarçar naturalidade, mas Ernesto estava totalmente fora de controle. Foi logo abrindo a boca pra dizer que casaria no outro dia com uma princesa turca e eu ri porque não sabia dessa história de princesa turca. Queria fechar a casa só para nós, implorava para que botassem um jazz do Charlie Parker ou do Dizzy, e como um débil mental revirava a caixa de discos sob a vitrola, fazendo caretas a cada nova descoberta. Teve que se contentar com Amado Batista. Entre os discos havia uma raridade do Vicente Celestino, e eu pedi para que separasse aquele LP.

– Tudo bem, pode ser este Batista mesmo, mas esta não é a música mais apropriada para o momento.

– Ai, eu adoro o Amado, teria dito uma das meninas.

Eu até que gostei da música mas Ernesto pareceu contrariado, como uma criança que não recebeu de natal o presente com que tanto sonhara. Pensei que desistiria de tudo, mas logo recobrou seu entusiasmo.

Não havia outros clientes e as mulheres saiam dos seus quartos com cara de sono e ainda metidas em camisolas ou toalhas de banho. As que tinham tomado banho causavam melhor impressão e era possível sentir algum desejo, mas cedo minhas forças haviam desvanecido. Estava arrependido daquela idéia que agora me parecia muito fora de moda, mas tinha me comprometido moralmente em não abandoná-lo e deveria levar a história a cabo, ou pelo menos até onde fosse suportável. Tentando dissuadi-lo, sugerindo que ficássemos mais uma ou duas horas, que voltássemos pra casa antes das 10, por que não seria bom que ele fosse deitar com uma puta na noite anterior ao seu casamento, mas ele estava alucinado, olhava para mim com olhos de cão feliz e ria sem entender o que eu falava.

Voltei para o balcão e pedi um copo de conhaque para poder agüentar mais um pouco. Parece que as putas captam a energia sincera e desesperada dos homens. Elas o rodeavam e esbanjavam agrados. Quanto a mim, fiquei no balcão, largado. Aquele disco do Amado Batista já tinha sido virado algumas vezes e me voltavam imagens da infância quando ouvia ‘Sol vermelho’ sem entender o resto da letra, apenas imaginando um maravilhoso pôr de sol numa praia, coisas que tinha visto em cartões postais. Resolvi trocar pelo Vicente Celestino antes que alguém tivesse uma idéia pior.

Quando outros homens chegaram as putas se espalharam e Ernesto veio até o balcão com a boca aberta soltando baforadas e ordenou que eu fosse buscar uma garrafa de uísque na loja do posto de gasolina. Tinha ficado amigo das meninas e elas permitiram esse feito. Foi o que ele falou ‘fomos autorizados a introduzir sub-repticiamente no recinto uma garrafa de malte para o deleite geral dos convivas’. Deu-me duas notas de 10 e me fez entender que o resto ficava por minha conta, afinal ele era o noivo, eu seria o padrinho do casamento, toda essa boa história para justificar mais uma ardilosa extorsão.

– Vou comprar do mais vagabundo.

– Não, não. Compre alguma coisa boa.

– Com todo esse dinheiro?

– Com mais vinte do teu.

– Mesmo assim. Só vai dar pra comprar um mais ou menos.

– Que seja um mais ou menos, mas que seja importado. Vamos beber com classe.

– Estilo.

– Pompa.

– Sim, e bocetas.

Ernesto não gostou muito de ouvir bocetas, não pela palavra, porque era uma coisa que queria muito e que por muito tempo lhe havia sido negada, mas pelo tom de censura com que falei.

– São bocetas de classe.

– Eu sei, por isso vou buscar o uísque. Porque você merece e sou seu amigo, hoje é a sua despedida de solteiro. Eu também estou ansioso, me perdoe, não me leve tão a sério.

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