Antes de chegar à rua já tinha decidido demorar mais do que o necessário para estar de volta. As coisas começavam a balançar dentro de minha cabeça e era difícil não pensar naquilo que a gente sempre tentou esquecer. Havia tanto para esquecer. Tantas coisas que machucaram e fizeram falta, que perdemos por covardia e ignorância, que fugiram, foram embora ou simplesmente deixaram de aparecer. Por que isso chegava à minha cabeça naquela hora não sei. Talvez por causa da música ou das mulheres, ou pelo fato de estar saindo para comprar uísque. Não se bebe assim quando se está em boa companhia. Essas garrafas são boas para quem anda sozinho. Eu estava sozinho e pensar nisso não me deixava bem.
Em vez de descer para a avenida segui pela Conselheiro Mafra. Aquilo me lembrava tanto os velhos tempos que tive vontade de chorar. As putas da ruas eram outras. Eu pensei que elas fossem viver ali para sempre, aquelas que eu encontrava sempre que voltava do trabalho ou quando saia à noite para comprar comida ou para procurar um lugar para me perder. A rua também estava diferente, muito mais limpa e regular. Um trecho fora asfaltado, o outro recebera ladrilhos novos, e o quase todo o casario tinha sido pintado. Continuava bonita, apenas mais bem vestida. Chegando à esquina subi pela Bento Gonçalves, que agora também estava asfaltada e parecia mais larga. Queria ver a casa onde tinha vivido meus anos mais conturbados. Naquela casa vi todos os melhores filmes, li alguns livros e esvaziei uma grande quantidade de garrafas. Naquele quarto ficaram enterradas várias das minhas ilusões e parte da minha grande ingenuidade. Ele ouviu gemido e urros de várias mulheres e depois meus lastimáveis soluços. Foi um lugar para perder. Uma que não sabia mais o que sentia, outra que nem sequer se despediu, e todas aquelas que desprezei, ignorei e descartei. Foi um lugar para ser mau, também.
Parei em frente à casa, no outro lado da rua. Por fora ela continuava a mesma. Melhor que estivesse assim com as janelas fechadas. Desta forma não tomava conhecimento das mudanças do interior e deixava intocado o que estava escondido na memória, o que com o tempo adquiria sempre um pouco mais de brilho. Tudo muda, meu velho, tudo passa, envelhece, pensei, dei meia volta, acendi um cigarro e apalpei o dinheiro no bolso da camisa.
Minhas pernas sabiam de cor o caminho para a loja. Tantas vezes andamos por aqui, tantas vezes fomos buscar bebida de madrugada. A porta automática se abriu e o ar gelado me bateu no rosto. Tirei várias garrafas da prateleira só pelo prazer de tocá-las, como se toca em coisas queridas como máquinas de escrever ou crianças de colo. Um Bells estaria de bom tamanho e o balconista já me estudava desconfiado. Paguei e pedi que embrulhasse em duas sacolas, uma de papel pardo e outra de plástico branco. Ele achou graça, riu com certo descaso, mas como eu mantivesse a cara fechada providenciou o embrulho e entregou-me o troco. Pedi que imprimisse uma nota fiscal e ele ficou sério.
– É que eu trabalho na Justiça e não fica bem andar com uma mercadoria dessa natureza sem o comprovante de minha contribuição do imposto sobre produtos industrializados. Sabe como essas coisas são, não é?
– Ah, sim. O Senhor precisa de mais alguma coisa?
– Não. Muito obrigado.
– Tenha uma boa noite, Senhor. E obrigado. Quando o Senhor precisar… a loja fica aberta 24 horas.
– Eu sei.
– Às suas ordens, Senhor.
– Essa bebida é importada, não é?
– Acho que sim, Senhor.
– Tem certeza que não é paraguaia?
– Oh não, tudo aqui é de boa procedência.
A porta automática se abriu e o bafo quente da rua me bateu no rosto, embaçando as lentes dos óculos. Sentia-me muito bem com os pronomes de tratamento, aquela garrafa apertada sob braço e a rua escorrendo debaixo dos meus pés. Desta vez decidi subir pela Pe. Roma e andei devagar até o final desta rua. Sentei no degrau da entrada da loja de móveis e acendi um cigarro. Destampei o litro e dei um gole. Guardei a garrafa e desci até a Gama D’Eça, andando sempre devagar. No outro lado da rua havia outro posto de combustível. Tudo sempre tão igual, pensei. Fiz o caminho de volta, parando para fumar e cheirar o litro. Se eu continuasse bebendo acabaria esquecendo do Ernesto.
Já passava da meia-noite quando cheguei de volta. Esperava encontra-lo decidido a abandonar a festa e voltar para casa. Imaginei que com minha demora o efeito do álcool em sua fraca cabeça já tivesse passado e o senso de responsabilidade voltado ao seu cantinho. Procurei-o pela sala e no bar, mas nenhum sinal.
– Seu amigo está esperando. Disse que está ansioso pela mercadoria.
– Que mercadoria?
– Essa aí, embrulhada.
– Ah, sim. E onde é que ele está? Estive na sala e ele não se encontrava.
– Claro, você demorou e ele fui trabalhar. A primeira porta depois do banheiro, à esquerda - Piscou um olho pra mim e sorriu. Apertei o embrulho com as duas mãos e levantei-o, e enfiei o nariz dentro do pacote, fuçando como um porco. Ela gargalhou e deixei o bar aliviado. Num sofá uma puta novinha se esfregava num velho sujo. Aquilo me provocou ciúmes.
Oh, você não seria capaz de imaginar que cena triste. Lá estava Ernesto abraçado às pernas de uma puta despenteada e seminua. Ela usava apenas uma calcinha vermelha de renda e uma espécie estranha de meias que chegavam acima do joelho e eram presas à calcinha por barbantes toscos. Ernesto também estava quase nu e derramava sobre a cama toda aquela lírica de romances de capa e espada, vertendo lágrimas e engasgando-se em soluços aos braços da menina.
– Oh meu nobre e estimado irmão, dá-nos de beber do nobre licor gaélico, a mim e à minha nobre dama. Hoje, senhora e senhor, é um dia muito especial…’ e desmanchou-se em soluços e lágrimas. A puta ria sem espanto e lhe acariciava os cabelos.
– Irmão, esta é Brigite.
– Muito prazer, Brigite. Como ele está?
– Muito bem, querido. Qual é a sua graça.
– Não tenho senso de humor.
– Ele não é engraçado, Ernestinho?
– Ele é muito engraçado e se chama Godofredo.
– Deixa disso.
– Tudo bem, ele se chama Ignácio e é meu grande amigo, meu irmão espiritual.
– Quer ser nossa irmãzinha espiritual?
– O que é isso?
– Melhor ser nossa irmãzinha carnal. Muito melhor, não acho Néstor?
– Mamãezinha carnal.
Ela gostou de ser chamada assim. Passou a mão pela fronte de Ernesto.
– Oh, meu amigo é uma gracinha. Meu amigo é um escritor, disse que vou estar no seu próximo livro e que seria sua amante. Mas posso ser mamãezinha também. Quer mamar, neném?
Ele queria e mamou. Ela ria. Eu não sabia o que fazer. Fui até a cozinha e trouxe três copos grandes com gelo. Depois de terminado o nobre licor, dormimos os três, eles na cama, eu no chão. Não fomos ao casamento, nem Ignácio, nem Ernesto, nem Brigite.
Agora eu tento rir de tudo isso, mas talvez devesse desmanchar-me em lágrimas. Nossas vidas continuam a repetir desgraças. A construção que não anda, o casamento que não acontece. E você chegando em Montevidéu, aquele largo sorriso de turista filho da puta na cara. Ah, Montevidéu do porto sujo, da cachaça quente, das bodegas fedorentas, as putas de bocetas cabeludas. Mas você não vai ver nada disso porque é um turista asseado e garboso, de hotéis perfumados e camareiras de cabelos alinhados, cafés da manhã com guardanapos de pano e música clássica nos elevadores e na sala de leitura.