Rompecabeza - Cap. IV

No dia em que recebi sua carta contando que chegava em Santiago (atente para a simultaneidade – isso poderá ser proveitoso para a sua teoria – eu lia os últimos poemas do Neruda e acabava de copiar um deles para minha caderneta; falava assim ‘quero saber se você vem comigo, a não andar e não falar, quero saber se ao fim alcançaremos a incomunicação…’, e havia outros, igualmente bons, alguns que falavam da Santiago), naquele dia nos encontramos para a embriaguez inevitável, eu e Ernesto, no Café Matisse, aquele maldito lugar, detestável arroto burguês, bebidas caras e velhas de unhas pintadas, e ele me falava dos preparativos para o casamento e de sua inacreditável sorte no amor. Eu remoia aqueles versos do poeta e engolia cerveja e conhaque – tocava um jazz meloso demais para ser suportável por mais de dois minutos – e Ernesto louvava sua mui querida e amada, gabando-se dos orgasmos e dos sonhos. ‘Andamos enlaçados pelos ombros pela sombra das palmeiras… Eu lhe disse: Vamos casar, não? Ela riu-se satisfeita e no mesmo tom disse: Perto de uma cachoeira, com arranjos de ikebana, etcétera…’ E, por favor, não faça troça porque este é o prelúdio da tragédia. Eu só pensava na companhia silenciosa do Neruda, na total incomunicação e que, de certa forma, aquilo estava acontecendo ali mesmo, naquela mesa de café. Terminado o relato das venturas amorosas ele riu de felicidade e eu ri porque sabia que não estávamos nos comunicando de forma alguma, apenas sonhando cada um seu sonho, estendendo de vez em quando uns tentáculos tímidos, testando a extensão de nossa incapacidade. Sim, você sabe, além de tudo sou inescrupuloso, falo dessas coisas como se lesse uma notícia de jornal em voz alta em praça pública.

E depois a noitada na zona com Brigite e o dia seguinte a cachoeira suja com pratos de plástico, cobertura de bolo e os arranjos de ikebana destruídos, pessoas desnorteadas e incrédulas, calmantes e queixas na polícia. E você já tinha deixado a cidade dos prédios imponentes, cidade dos falos gigantes. Você seu turista. E nós que nos vamos destruindo nesta cidade de merda que é Desterro. No fundo, bem que merecemos.

Agora ouço Liszt como quem disso fosse digno. Lembro das últimas semanas com Gaviota, quando descobria que ela não me suportava mais. Andava reclamando que eu só pensava nos tijolos e não me importava com ela. Que era um puto individualista e que nossas vidas vinham antes da construção, que eu estava sempre aberto a receber mas não queria dar nada em troca, que aquilo era injusto, etcétera. Depois se desculpou por ser tão sincera. Eu tinha me achegado tão carinhosamente, falei-lhe que tinha ficado mui contento por encontrá-la, que o dia ficava mais bonito com ela e toda aquela retórica salafrária, mas ela não me perdoou, disse-me todas essas coisas e muito mais que já esqueci. E eu ainda acreditava que estava agradando. Falava-lhe de Van Gogh e Gauguin, ela dizia que admirava minha inteligência, então eu tirei a roupa e fiquei nu sobre a cama, o pau ereto, ela começou a falar de seus planos e eu pensando que talvez o sexo fosse uma saída satisfatória para esta sinuca, a única maneira de nos entender e entrar em comunhão, em sintonia, mas ela insistia no uso da comunicação verbal e queria saber qual era a minha opinião sobre as decisões que ela queria tomar. Impacientei-me e só consegui magoá-la com respostas estúpidas, enquanto meu falo declinava murchando. Somos tão machos e individualistas, você bem sabe.

Foi aí que ela voltou mais uma vez aos tijolos para que eu aprendesse por repetição. Falou mais uma vez que eu não dava atenção para seus problemas. Pobre incomunicável sou, só pude ficar quieto e esperar que ela se acalmasse para depois dizer que ela estava com toda a razão, vestir minhas calças e pedir que abrisse a porta da rua. Não tive coragem para mais nada. Eu sou um verme miserável. Vil, mesquinho, desprezível, infame. E sobre o assunto é tudo o que tenho a falar.

Agora estou tão sentimental que me vejo obrigado a pedir desculpar por lhe ter insultado com a história do turista filho da puta. Estou tão comovido que não seria capaz de esmagar um cupim sem sentir a culpa dos impostores e covardes. Perdi o que tinha, não consigo prosseguir com as reformas, Ernesto não casou, está sem comer direito, trancado em casa sem falar com ninguém. Acho que tudo é culpa minha. Estado lamentável este, meu irmão, bem sabes. Melhor terminar esta carta de uma vez.

Melhor voltar ao jardim, arrancar algumas ervas, recontar os tijolos, tirar esse disco da vitrola, preparar o almoço em silêncio e comer sozinho. Sim, sozinho como hei de viver e morrer, porque é isso que mereço, eu e os tijolos que me entendem e a construção por começar, Ernesto agarrado eternamente às pernas de uma puta de plástico, você eternamente numa balsa, entre o continente e uma ilha deserta no pacífico, ou em Buenos Aires ou Montevidéu, naquele quarto sempre limpo e arrumado, pensando em como seria bom dormir com a camareira, enviando postais aos amigos na Ilha, cada um em seu próprio mundo e em sua indelével solidão, na total incapacidade de se libertar do casulo da vida ordinária, sem nunca poder nos compreender e aos outros.

Me ha tocado deshacer el rompecabezas de mi vida y volverio a armar. Oye! se me esta acabando el tiempo! Me tengo que ir.

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