Notícias de uma festa

Ontem teve uma festa na empresa. Não estou certo do que se comemorava, mas deve ter sido uma homenagem aos novos empregados do departamento. Lembro que cheguei cedo demais. A carne ainda não tinha sido levada ao fogo e o grande chefe trabalha atrás do balcão da cozinha com três secretárias. Ele picava um queijo enorme, quase do tamanho da lua, com uma faca de açougue, aquelas de cabo branco e lâmina estreita. As secretárias, senhoras nos seus quarenta ou cinqüenta anos, preparavam salada de batata e passavam patê em pedacinhos de pão torrado. Já havia uma cerveja aberta sobre o balcão e fui convidado a servir-me. Provei também do queijo e o grande chefe se orgulhava, em seu avental branco com duas listas azuis transversais na altura do estômago, falando da procedência da iguaria. Um grande amigo havia trazido da Serra, por ocasião de uma de suas viagens em visita à família da esposa. Ofereci-me para auxiliá-los nos preparativos, mas agradeceram justificando que não havia espaço, aquela cozinha era tão pequena.

Logo chegaram outras pessoas e eu me sentia seguro diante delas elogiando a qualidade do queijo e me dizendo conhecedor das técnicas de sua produção. Enquanto falava podia jurar que sentia o cheiro do esterco das vacas na estrebaria. Era muito agradável recordar daquelas velhas coisas da infância no sítio, do leite nos baldes e dos pelos que sempre ficavam no pano quando era coado. Eu me achava muito superior àquelas pessoas por saber que a brancura não tem nada de muito puro, esse branco que sai das tetas pela ação de mãos calejadas e por vezes machucadas ou por ordenhas encardidas e malcheirosas. Deveria falar-lhes de mastite, mastadenite, mamite, dos carrapatos, bernes ou bicheiras, verrugas, verminose e caruncho, mas preferi guardar todos os meus segredos e sorrir enquanto suas bocas espumavam mastigando o queijo. As cervejas já estavam pagas e éramos estimulados a apanhá-las no refrigerador. Comecei a me sentir realmente muito bem por conta de toda essa liberdade. Quando mais pessoas chegaram e formou-se um grupo consistente, fui até a varanda e acendi um cigarro como pretexto para me afastar e fazer a digestão.

Lembro que no final da festa eu estava tocando harmônica e bateria. Ninguém dos que ficaram até aquela hora pareceu ter gostado muito do meu show. Eles não gostaram de eu bêbado. Eles são uns chatos. Eu estava feliz. E gosto de estar bêbado feliz. Mas eles não gostaram de eu bêbado e feliz, especialmente o dono da bateria, um sujeito magro e bem vestido. Estão acostumados comigo sério e contido, fumando quieto num canto. Eu estava falando muito também, fora do comum, sobre os discos do bob Dylan, da influencia dele sobre o Lou Reed. Alguém não entendeu e eu tive que repetir gritando LOU REED, língua enrolando, um pouco de cuspe saltando da boca e grudando na gola do sujeito. Olhavam com ar assustado e comentavam dissimulados. Mas eu estava feliz, e não me preocupava em fingir nada.

Hoje acordei me sentindo bem, apesar de todo o álcool, talvez porque não tenha sido tanto e porque não abusei da nicotina e dos dióxidos do tabaco queimado. Mas a viagem de ônibus para o trabalho começou a me incomodar. Causou-me mal estar. Na altura da Costeira Sul eu estava suando e sentia que meu sangue circulava em outros lugares menos na cabeça e nas mãos. Minha barriga começou a doer. A boca estava seca, os lábios grudados e a garganta ardendo. Lembrei daquela garrafa de água que tinha tirado da maleta antes de sair de casa, no meu excesso de confiança. O ônibus andava devagar, às vezes parava na pista. O trânsito estava lento. Eu suava e forçava pensamentos positivos. Paradoxalmente estava feliz. Agora por motivos diversos dos da noite anterior.

Era bom estar vivo. Acordara bem e me envolvia em mais uma aventura da vida ordinária. Uma menina tinha sido gentil comigo, no ônibus. Logo pela manha isso faz um bem danado. E uma senhora também tinha sido gentil comigo, o que me parecia demais para um só dia. Se eu fosse religioso e você também o fosse, lhe diria que ali naquele ônibus, às sete e quarenta da manhã, sentia a presença de deus. Mas não somos religiosos, por isso, além de sofrer por outros carecimentos, o número de nossas metáforas também é circunscrito. A menina estava sentava no banco do lado da janela e tinha se oferecido para levar minha maleta no colo. Eu estava em pé, debilmente agarrado à trave metálica fria e engordurada. Minha face deveria estar transpirando sofrimento, porque em seguida a senhora que sentava ao seu lado repetiu o gesto. Agradeci as duas, cada uma em seu tempo. A maleta não pesava para mim. Também não atrapalhava. Era um apoio para a minha fraqueza, algo em que tenho me segurei nos últimos dez meses, sozinho carregando o peso que transcende o volume dos papéis e da agenda, uma calculadora e bolachas salgadas para comer escondido no banheiro, às 10 e trinta da manhã e as três horas da tarde.

A menina era bonita. Tinha peitos grandes. Cabelos longos, lisos, castanhos. Depois percebi que ela usava aquela maldita aliança dourada no dedo segundo da mão direita. Não sei por que isso às vezes me abate. É só um pouco, mas me entristece. Talvez por não saber quem é ele, por temer que não seja bom para ela. Ou talvez por lembrar outras coisas. No entanto era agradável observá-la de onde eu estava. Lia uma pequena revista com marcas profunda de dobras. Um artigo horrível sobre maconha e dependência. Ela tinha bons peitos, mas naquela hora eu não pensava em sexo. Pensava coisas leves e agradáveis (ao mesmo tempo suava gelado e me preocupava com a lentidão do ônibus, a dor abdominal, o mal estar, o sol luminoso demais para meus olhos pouco dormidos), pensava no quanto aquela situação era real, em como poderia ser boa No final da viagem fui acometido por uma louca vertigem, em qualquer sentido que queira, porque quando aconteceu as definições se perderam por completo. Quando o ônibus parou tudo se misturava num reboliço, na minha cabeça e nas tripas.

Pensei em me abrigar na sombra. Andei ao lado de uma construção. A grama era verde e viçosa, molhada do orvalho ou a chuva da madrugada. Fiquei alguns instantes sem saber o que fazer ou para onde andar. Não sabia se deveria tentar vomitar ou se procurava um lugar para descansar. Mas tudo se acalmou de repente e segui meu caminho de todo o dia, sem muito pensar, sem muito sentir. Seriam dez minutos de caminhada, do Armazém Vieira até a Empresa.

Subindo a passos rápidos descobri o porque das dores abdominais e daquele mal estar repentino. Precisava urgentemente de um banheiro. Sabia que os postos de combustível, além de cigarro e bebida, tem esse serviço, tudo o que a gente precisa. No final da subida havia um posto novo e apressei ainda mais meu passo. O rapaz estava ao lado de uma lixeira azul, com uma chave amarrada por um arame à extremidade de uma tabuleta de quase um palmo de comprimento. ‘Vocês têm banheiro aqui’. Ele amarrava a chave na tabuleta. Meu campo de visão reduziu-se aos seus dedos entortando o arame com calma e muito esforço. Achei aquele trabalho longo demais e sem préstimo. Eu suava, as entranhas doíam. ‘A segunda porta’, e ele estendeu a tabuleta. Estava escrito ‘chave banheiro’.

Agora tomo um café com pouco açúcar, depois de alguns copos de água, pequenas doses de hepatilon (um composto de ervas amargas que me salvou naquele domingo do filme), um antiácido.

As coisas voltaram à normalidade, é o que se esperaria que eu dissesse, mas não seria verdade. Em qualquer momento que qualquer pessoa falar isso estará mentindo, mesmo sem querer. Você sabe do que eu falo. Não é nada da vida ordinária. Esqueça a menina no ônibus, a embriaguez e os remédios. Essas coisas estão na superfície e sei que você as vê com as lentes apropriadas. Tem um poema que diz “fundo penetra o pensar / o ponto de vista cria objetos …” e assim tudo caminha.

Estou contando os dias. Só mais dois meses e deixo esse emprego. Vou ter tempo para me dedicar à construção, assim espero.

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