céu ribeira em três atos

Notícias de uma festa

Ontem teve uma festa na empresa. Não estou certo do que se comemorava, mas deve ter sido uma homenagem aos novos empregados do departamento. Lembro que cheguei cedo demais. A carne ainda não tinha sido levada ao fogo e o grande chefe trabalha atrás do balcão da cozinha com três secretárias. Ele picava um queijo enorme, quase do tamanho da lua, com uma faca de açougue, aquelas de cabo branco e lâmina estreita. As secretárias, senhoras nos seus quarenta ou cinqüenta anos, preparavam salada de batata e passavam patê em pedacinhos de pão torrado. Já havia uma cerveja aberta sobre o balcão e fui convidado a servir-me. Provei também do queijo e o grande chefe se orgulhava, em seu avental branco com duas listas azuis transversais na altura do estômago, falando da procedência da iguaria. Um grande amigo havia trazido da Serra, por ocasião de uma de suas viagens em visita à família da esposa. Ofereci-me para auxiliá-los nos preparativos, mas agradeceram justificando que não havia espaço, aquela cozinha era tão pequena.

Logo chegaram outras pessoas e eu me sentia seguro diante delas elogiando a qualidade do queijo e me dizendo conhecedor das técnicas de sua produção. Enquanto falava podia jurar que sentia o cheiro do esterco das vacas na estrebaria. Era muito agradável recordar daquelas velhas coisas da infância no sítio, do leite nos baldes e dos pelos que sempre ficavam no pano quando era coado. Eu me achava muito superior àquelas pessoas por saber que a brancura não tem nada de muito puro, esse branco que sai das tetas pela ação de mãos calejadas e por vezes machucadas ou por ordenhas encardidas e malcheirosas. Deveria falar-lhes de mastite, mastadenite, mamite, dos carrapatos, bernes ou bicheiras, verrugas, verminose e caruncho, mas preferi guardar todos os meus segredos e sorrir enquanto suas bocas espumavam mastigando o queijo. As cervejas já estavam pagas e éramos estimulados a apanhá-las no refrigerador. Comecei a me sentir realmente muito bem por conta de toda essa liberdade. Quando mais pessoas chegaram e formou-se um grupo consistente, fui até a varanda e acendi um cigarro como pretexto para me afastar e fazer a digestão.

Lembro que no final da festa eu estava tocando harmônica e bateria. Ninguém dos que ficaram até aquela hora pareceu ter gostado muito do meu show. Eles não gostaram de eu bêbado. Eles são uns chatos. Eu estava feliz. E gosto de estar bêbado feliz. Mas eles não gostaram de eu bêbado e feliz, especialmente o dono da bateria, um sujeito magro e bem vestido. Estão acostumados comigo sério e contido, fumando quieto num canto. Eu estava falando muito também, fora do comum, sobre os discos do bob Dylan, da influencia dele sobre o Lou Reed. Alguém não entendeu e eu tive que repetir gritando LOU REED, língua enrolando, um pouco de cuspe saltando da boca e grudando na gola do sujeito. Olhavam com ar assustado e comentavam dissimulados. Mas eu estava feliz, e não me preocupava em fingir nada.

Hoje acordei me sentindo bem, apesar de todo o álcool, talvez porque não tenha sido tanto e porque não abusei da nicotina e dos dióxidos do tabaco queimado. Mas a viagem de ônibus para o trabalho começou a me incomodar. Causou-me mal estar. Na altura da Costeira Sul eu estava suando e sentia que meu sangue circulava em outros lugares menos na cabeça e nas mãos. Minha barriga começou a doer. A boca estava seca, os lábios grudados e a garganta ardendo. Lembrei daquela garrafa de água que tinha tirado da maleta antes de sair de casa, no meu excesso de confiança. O ônibus andava devagar, às vezes parava na pista. O trânsito estava lento. Eu suava e forçava pensamentos positivos. Paradoxalmente estava feliz. Agora por motivos diversos dos da noite anterior.

Era bom estar vivo. Acordara bem e me envolvia em mais uma aventura da vida ordinária. Uma menina tinha sido gentil comigo, no ônibus. Logo pela manha isso faz um bem danado. E uma senhora também tinha sido gentil comigo, o que me parecia demais para um só dia. Se eu fosse religioso e você também o fosse, lhe diria que ali naquele ônibus, às sete e quarenta da manhã, sentia a presença de deus. Mas não somos religiosos, por isso, além de sofrer por outros carecimentos, o número de nossas metáforas também é circunscrito. A menina estava sentava no banco do lado da janela e tinha se oferecido para levar minha maleta no colo. Eu estava em pé, debilmente agarrado à trave metálica fria e engordurada. Minha face deveria estar transpirando sofrimento, porque em seguida a senhora que sentava ao seu lado repetiu o gesto. Agradeci as duas, cada uma em seu tempo. A maleta não pesava para mim. Também não atrapalhava. Era um apoio para a minha fraqueza, algo em que tenho me segurei nos últimos dez meses, sozinho carregando o peso que transcende o volume dos papéis e da agenda, uma calculadora e bolachas salgadas para comer escondido no banheiro, às 10 e trinta da manhã e as três horas da tarde.

A menina era bonita. Tinha peitos grandes. Cabelos longos, lisos, castanhos. Depois percebi que ela usava aquela maldita aliança dourada no dedo segundo da mão direita. Não sei por que isso às vezes me abate. É só um pouco, mas me entristece. Talvez por não saber quem é ele, por temer que não seja bom para ela. Ou talvez por lembrar outras coisas. No entanto era agradável observá-la de onde eu estava. Lia uma pequena revista com marcas profunda de dobras. Um artigo horrível sobre maconha e dependência. Ela tinha bons peitos, mas naquela hora eu não pensava em sexo. Pensava coisas leves e agradáveis (ao mesmo tempo suava gelado e me preocupava com a lentidão do ônibus, a dor abdominal, o mal estar, o sol luminoso demais para meus olhos pouco dormidos), pensava no quanto aquela situação era real, em como poderia ser boa No final da viagem fui acometido por uma louca vertigem, em qualquer sentido que queira, porque quando aconteceu as definições se perderam por completo. Quando o ônibus parou tudo se misturava num reboliço, na minha cabeça e nas tripas.

Pensei em me abrigar na sombra. Andei ao lado de uma construção. A grama era verde e viçosa, molhada do orvalho ou a chuva da madrugada. Fiquei alguns instantes sem saber o que fazer ou para onde andar. Não sabia se deveria tentar vomitar ou se procurava um lugar para descansar. Mas tudo se acalmou de repente e segui meu caminho de todo o dia, sem muito pensar, sem muito sentir. Seriam dez minutos de caminhada, do Armazém Vieira até a Empresa.

Subindo a passos rápidos descobri o porque das dores abdominais e daquele mal estar repentino. Precisava urgentemente de um banheiro. Sabia que os postos de combustível, além de cigarro e bebida, tem esse serviço, tudo o que a gente precisa. No final da subida havia um posto novo e apressei ainda mais meu passo. O rapaz estava ao lado de uma lixeira azul, com uma chave amarrada por um arame à extremidade de uma tabuleta de quase um palmo de comprimento. ‘Vocês têm banheiro aqui’. Ele amarrava a chave na tabuleta. Meu campo de visão reduziu-se aos seus dedos entortando o arame com calma e muito esforço. Achei aquele trabalho longo demais e sem préstimo. Eu suava, as entranhas doíam. ‘A segunda porta’, e ele estendeu a tabuleta. Estava escrito ‘chave banheiro’.

Agora tomo um café com pouco açúcar, depois de alguns copos de água, pequenas doses de hepatilon (um composto de ervas amargas que me salvou naquele domingo do filme), um antiácido.

As coisas voltaram à normalidade, é o que se esperaria que eu dissesse, mas não seria verdade. Em qualquer momento que qualquer pessoa falar isso estará mentindo, mesmo sem querer. Você sabe do que eu falo. Não é nada da vida ordinária. Esqueça a menina no ônibus, a embriaguez e os remédios. Essas coisas estão na superfície e sei que você as vê com as lentes apropriadas. Tem um poema que diz “fundo penetra o pensar / o ponto de vista cria objetos …” e assim tudo caminha.

Estou contando os dias. Só mais dois meses e deixo esse emprego. Vou ter tempo para me dedicar à construção, assim espero.

baleiro fabuloso

Ah, os aleluias!

Tenho querido lhe escrever com toda a sinceridade, mas cada vez que inicio uma carta, sabe-se lá por que razões, disperso-me tecendo comentários sobre as condições atmosféricas, a relação dos fenômenos meteorológicos e o posicionamento relativo dos astros com meu estado físico e emocional (observo uma aranha carregando um cupim voador para sua toca e isso produz em mim aquela sensação prazerosa de assistir a execução da vingança sem sujar as mãos), praguejo contra os insetos que tanto me tem importunado, ou então passo a descrever as atividades domésticas nas quais estive envolvido durante o dia todo ou nas últimas horas, tarefas enfadonhas e improlíficas como lavar as panelas encardidas de comida velha ou varrer as folhas da goiabeira que se acumulam em frente ao degrau da porta da cozinha, vasculhar entre as pedras e esmagar caramujos miúdos. Termino assim, sem nada ter concluído, o primeiro parágrafo e dissimulo uma satisfação de tarefa bem encaminhada e objetivos parciais atingidos, mas aos poucos minha face vai se enrugando, os músculos voltam à posição de repouso e as pálpebras e as pestanas começam a pesar. Tomo um fôlego de estourar os bronquíolos e prometo ao deuses abordar de vez o assunto de interesse. Volto-me com autoridade para o papel, como um comandante de tropas a dar uma ordem capital, mas nesta hora surge algum bom subterfúgio ao qual me agarro, chama-me a atenção aquela trepadeira cucurbitácea que cresce pálida e desmilinguida no emaranhado de seus frágeis braços pelo varal que serve mais para o pouso das moscas que para a exposição das roupas, depois aquela rachadura na parede caiada da casa ao lado, grudada ao meu muro, onde se escondem as formigas e as lagartixas menores, e que me deixa apreensivo diante da possibilidade da derrocada, e então surgem outras matérias sem relevância aparente, a não ser pelo fato de representarem um alívio provisório ao peso angustiante que se assenta sobre meus ombros e omoplatas.

Releio o que ficou gravado no primeiro agrupamento, que por definição deveria apresentar o desenvolvimento de uma idéia com frases intimamente relacionadas entre si et cetera, e envergonhado decido que o bem de se fazer é implorar para que desconsidere as divagações ou que as encare como um exórdio tangente e difuso ou um intróito surrealista, e que caberia a você decifrar os códigos do meu automatismo psíquico, mas valha-me são bonifácio, estou mais uma vez circulando e me afastando e dançando no cascalho enlameado das veredas, reconheço todo o ridículo de meus pensamentos e a incapacidade de clareza objetividade análise e composição. Deveria sim, começar tudo de novo, desta vez da forma correta, numa carta clara, tratando apenas do pertinente e imprescindível, numa folha limpa, destilando meu melhor laconismo. Mas que sei eu disso para me atrever. Nada sei do que tenho ou devo ou preciso escrever e de que forma realizar aquilo de que sei apenas que precisa ser feito e nada mais, nem o que é, nem para que serve, nem do que se trata, nem como deve parecer, esse maldito dever que me foi atribuído sem que me fosse permitido o acesso aos códigos e mapas.

Para livrar meu cérebro de tanta inutilidade e salvar o que me resta da vida, decido me esticar na rede, tomar mais um mate, abrir uma cerveja, clarear as idéias e deixar que o tempo, o ócio e a falta do que fazer me digam o que tenho assim de tão importante para dizer-lhe. Creia que me empenhei nesta sublime tarefa, e cheguei a descobrir, depois da cerveja, que havia anos cultivava o hábito de acender e fumegar cigarros e que agora deveria buscar um daqueles maços que ficam escondidos na caixa de macarrão na estante da sala e fechar os olhos para descansar de todos os meus devaneios nada produtivos.

O que tenho para lhe dizer, no entanto, parece que conseguirei, pelo menos em parte, desta vez. Creio que nas tentativas anteriores nada estava claro (ainda não está, e peço que tenha paciência com o excessivo uso dos advérbios de dúvida e todas as imprecisões e reticências, raciocínios circulares, conclusões duvidosas). Quero encontrar a melhor maneira de trilhar esta via nebulosa sem torna-la ainda mais obscura, mas as imagens de minha pessoa estirada na rede com um cigarro à boca, os mosquitos e as aranhas, o sol da tarde e o mormaço pegajoso voltam a cada nova linha, tentado derrubar meu circo como touros loucos indomáveis na arena. Oh sim, estou no meio do picadeiro e você me olha ansioso e perscrutador, você platéia solitária, fumegante e impaciente à espera da revelação do truque. Não há holofotes, apenas uma claridade dirigida, vindo de algum lugar indefinido, uma mancha cor de nada translucidando o espaço que ocupamos e o caminho imaginário que nos une teu olhar ao meu espetáculo. Estou sentado no chão do picadeiro sobre as pernas, desenhando com uma vareta na serragem misturada com areia e pequenos pedaços de merda seca dos cavalos, mas a figura não se forma e não me decido a levantar, apesar de saber, sem olhar, que aguardas pelo movimento decisivo. Sei que você observa e, agora, vendo esta cena em flash back daqui onde estou, entendo que o que lhe aflige é o temor de que seu cigarro acabe, porque você sabe que terá dificuldade em encontrar alguma venda aberta a esta hora. Vejo no movimento nervoso e quase imperceptível dos teus lábios o vapor que sobra das imprecações que saem como pombos assustados por tiros de caçadores. Não sei se estou realmente escrevendo ou se isso tudo não passa dos meus pensamentos esfumaçados no balanço silencioso da rede. Parece que o sol me atinge e esquenta a cabeça, agora que está mais inclinado a oeste.

(Acabo de queimar três cupins com a brasa do cigarro. Você acha realmente que isso é crueldade? Depois esmaguei vários com o pé. Vou lhe explicar como esses animais funcionam: eles vivem dentro das tábuas da minha casa. São seres sociais, vivendo em comunidades geralmente populosas, formadas por indivíduos ápteros e alados. Os bichinhos são vegetarianos, graças a deus, mas se alimentam de objetos de madeira ou compensado, de papel, causando sérios prejuízos. Os que moram comigo são xilófagos, possuindo protozoários intestinais que digerem a celulose. Passam o tempo todo comendo, ou destruindo, depende do ponto de vista. Passavam o tempo todo dentro das minhas tábuas, mas chegou o dia em que sentiram a necessidade de procriar e constituir uma nova família. Então desejaram e fizeram nascer asas – até então eles são apenas vermes com patas e antenas – o que é perfeitamente compreensível, quero procriar, quero ter asas. O que impressiona é que a idéia nasce em todos ao mesmo tempo, então eles nos proporcionam um espetáculo: eu chamei de ‘a revoada’, mas os românticos enchem o peito de mel para dizer que se trata do vôo nupcial, e os malditos insetos, agora alados, tanto o macho quanto a fêmea, são designados aleluias [do hebraico hallelu Yah, ‘louvai ao Senhor’]. Depois de fecundadas (sabe o que isso significa, eles ganharam asas para sair e foder, como os filhos de papai ganham um carro) as fêmeas vão formar novas colônias. Eu fiquei aterrorizado com minha primeira experiência, estou falando da revoada dos isópteros.

Estava no quarto e percebi que por uma fresta sobre a porta os pequenos desciam. Mais que depressa compreendi que chegara o momento da minha revanche, pois que por muitos dias tinha-os procurado, sem que eles se apresentassem para a batalha. Com uma seringa injetava veneno nos orifícios por onde saia o resultado de sua digestão, mas nunca os tinha encontrado em pessoa. Agora poderíamos dar início ao confronto e rapidamente equipei-me com meu pulverizador. Tinha comigo a certeza da vitória, mas amarguei a desilusão e o desespero. Eles não morriam com o veneno. Para tanto era preciso esmaga-los, o que não constituiria um grande problema se eles se reduzissem ao número do milhar. Os aleluias eram numerosos como as estrelas de setecentos céus e saíam de todo lugar. Eu corria do quarto para a sala, atirando alpercatas nos voadores e pisando nos que andavam namorando pelo chão, esmagando com os dedos os que buscavam a luz nos vidros da janela. Luta inglória, mas eu continuava a aspergir o veneno. Qual foi meu espanto quando fugindo da ação tóxica de minha ineficácia bélica, busquei o alívio dos ventos da varanda: todo o ar estava infestado de cupins voadores que saíam do telhado de minha casa, e olhando para o lado, do telhado da casa vizinha, e olhando para os outros quadrantes, saindo dos telhados de todas as casas, aleluia aos quatro ventos. Eu estava irremediavelmente derrotado, ridículo com meu pulverizador amarelo pendendo da mão esquerda. Sentei-me apoiando as costas contra o muro, sentindo as pedras do reboco pressionando suavemente minha carne. Acendi um cigarro e sabia que trégua era uma palavra que só existe na língua dos homens. Pensei várias outras palavras como comiseração, contemplatione, resignação.

Só alguns dias mais tarde consegui compreender a verdade desta história, não na sua totalidade, mas na parte que me toca e que me força a aceita-la como catastroficamente inevitável. No entanto, ainda fiz alguns esforços para evitar que os estragos fossem maiores e para eximir minha alma da culpa da covardia. Fui um bravo, na medida racional do possível. E de que adianta a racionalidade, caro irmão, contra essa ordem cosmológica de um desejo e um cio coletivo universal? Durante os dias seguintes eles ainda continuaram a sair de suas tocas, mas em número bem mais reduzido. Diria que estes estão atrasados, por isso merecem a brasa do cigarro. Você acha que é crueldade? Eles estão em todo o lugar.)

Então penso ‘a ficção poderia me salvar, o mistério das entrelinhas e as metáforas poderiam me salvar’, mas por quê? Por que não falar claramente das coisas, diretamente das coisas? Vamos falar das coisas então, Alpheu. Esta máquina de escrever, por exemplo, com suas magníficas articulações, braços, tipos e automatismos. Esta é minha luva de ferro, a manopla que envolve a mão que estendo, mecânica que passa a ser metafísica, fundido no calor matemático da palavra martelada. Ah, esta máquina de escrever, tão silenciosa sobre meus livros velhos, tão bela em seu sono de matéria. Admiro essas coisas que podem passar muito tempo na completa indolência e depois voltam sem esforço à tarefa que as faz ser aquilo que são, sem prejuízo e sem dor. E eu que queria falar claramente das coisas corrompo sua pureza com meu olhar pegajoso e embaçado. Por que por dentro de tudo está a minha mão suja e por fora superfície calejada dessa visão túmido e viciado.

(Estou preservando as lagartixas e as aranhas. São animais admiráveis, mas é incrível como esses caçadores podem ser tão tímidos. Quando me vêem, mais que rápido procuram o caminho de volta para a toca, ou sobem parede acima, cheios medo infundado. Suas presas, por outro lado, esbanjam insolência. Por formarem o maior grupo, talvez. Tem sido a história da sociedade humana também, que podemos esperar dos pobres vermes?)

Veja que falhei mais uma vez. Minha mente está soltando pelos cabelos. Tinha algo para lhe dizer, mas não sei mais o que poderia ser. Talvez isso que escrevi, o que pode ter ficado nas entrelinhas. Não consegui encontrar suas últimas cartas. Devem estar em alguma das caixas de papelão no quarto grande, junto com as ferramentas e o saco de roupas de inverno, mas você ainda não veio me visitar e parece-me escusado falar-lhe do quarto grande ou de qualquer outra parte da casa. Prometo que as encontrarei e voltarei a lê-las. Espero encontrar nelas algum traço de sua imagem. Então conversarei melhor contigo.

Rompecabeza - Cap. I

Ao diabo as todas as suas teorias. Fale-me das coisas práticas, de como se faz e como se vive, qual a melhor maneira de transportar pedras, o jeito correto de acentar tijolos, como não arrebentar a coluna e manter a coerência nas frases que escapam pela boca a procura de um gancho de suspensão na parede ou uma rede de caçar borboletas para descansar. É disso que preciso agora mais do que em todos os outros dias que passei rastejando no risco liso da história da minha vida. Saber como se faz a massa de cimento, qual a proporção dos materiais, quantas varas de ferro e qual espessura em polegadas para cada viga, dessas preocupações tenho ocupado meu intelecto e os malditos nervos que prendem minha carne aos ossos e controlam os movimentos dos membros. Você me falava da cor que devo usar na pintura da sala, mas acho um pouco cedo para tomar esta decisão. De qualquer forma aceito sua sugestão, poderá ser mesmo um amarelo Van Gogh, e pretendo mesmo me embriagar neste dia para dar mais vida aos traços e tentar deixar transparecer um a loucura que tenho mantido dentro das caixas no quarto grande, todas aquelas orelhas guardadas, embrulhadas em papel de secar as mãos roubados do banheiro do posto de gasolina. Que deveria fazer com minha imitação dos girassóis? Sim, pendurá-la no galinheiro, porque as galinhas gostam de milho por causa da cor, que é alegre e alimenta. Acho que não ficarão perturbadas com uma natureza morta.

Acabei de voltar do jardim. Na caixa de correspondências encontrei um cartão de Buenos Aires. Aventuras pela terra do fogo, faz lá um frio infernal. Pelo menos desta vez não vieram os conselhos e as psicologias do almanaque de Jung. ‘Estou partindo para Montevidéu. Estivemos na terra do fogo, faz lá um frio infernal (sei que esse maldito foi proposital). Como vão as coisas por aí? Abraços fraternos. PS (sempre vem esse pós alguma coisa, a tua necessidade de negar o fim, a crença mascarada no depois que sempre deve existir) Como vai a construção da casa? E o casamento do Ernesto, como foi?’ Ah, sim, como se importa com os amigos, quanto franciscanismo para com os irmãos, muito admirável sua preocupação. Pois digo que da construção não há novidade alguma. Estamos em falta de braços para a obra, os argonautas todos abandonaram o barco e as ninfas são pura imaginação dos poetas. Falta dinheiro também para executar os planos que fiz. Pra ser sincero, faltam até mesmo os planos. No começo projetava em desenhos quase todo o dia, e a cada novo esboço a casa se tomava nova forma. Fiz um projeto maravilhoso numa noite dessas. A casa teria um porão com adega, um túnel, um poço, um cofre e um esconderijo, com acesso secreto. Acabei desistindo quando passou o efeito do vinho e os papéis todos fizeram um fogo furioso na varanda, perto do canteiro de tomates. Agora não tenho mais idéias nem força. Vou ter de enfrentar as adversidades e os cupins por um tempo. Talvez venha a me acostumar com as coisas como estão.

Rompecabeza - Cap. II

Quanto ao casamento do Ernesto há muito que falar, mas contarei apenas o essencial. O que sobrou de tudo foram umas fotos do noivo chorando abraçado às pernas de uma puta da Wiskeria da Ilha. Creia-me, foi um acontecimento funesto, calamitoso. Decidimos que ele deveria ter uma despedida de solteiro, como era costume nos tempos antigos. Não lembro de quem foi a idéia, pois surgiu no meio de algumas garrafas vespertinas de vinho tinto seco e barato naquela cantina da Lauro Linhares. E depois vieram outras, que tivemos que esvaziar para nos encher de coragem. Ernesto nunca tinha dormido com uma puta e estava ansioso e excitado, com aquelas suas tão conhecidas reações somáticos, taquicardia, sudorese, necessidade desesperada de nicotina, risadas descontroladas e palmadas sobre a mesa. Apesar de alterado eu ainda estava bastante consciente de tudo o que acontecia. O italiano rondava a mesa e não estava gostando daquela farra. Para evitar constrangimentos sugeri que fossemos de uma vez. Ele não relutou.

Chegamos cedo. Eu ainda tentava disfarçar naturalidade, mas Ernesto estava totalmente fora de controle. Foi logo abrindo a boca pra dizer que casaria no outro dia com uma princesa turca e eu ri porque não sabia dessa história de princesa turca. Queria fechar a casa só para nós, implorava para que botassem um jazz do Charlie Parker ou do Dizzy, e como um débil mental revirava a caixa de discos sob a vitrola, fazendo caretas a cada nova descoberta. Teve que se contentar com Amado Batista. Entre os discos havia uma raridade do Vicente Celestino, e eu pedi para que separasse aquele LP.

– Tudo bem, pode ser este Batista mesmo, mas esta não é a música mais apropriada para o momento.

– Ai, eu adoro o Amado, teria dito uma das meninas.

Eu até que gostei da música mas Ernesto pareceu contrariado, como uma criança que não recebeu de natal o presente com que tanto sonhara. Pensei que desistiria de tudo, mas logo recobrou seu entusiasmo.

Não havia outros clientes e as mulheres saiam dos seus quartos com cara de sono e ainda metidas em camisolas ou toalhas de banho. As que tinham tomado banho causavam melhor impressão e era possível sentir algum desejo, mas cedo minhas forças haviam desvanecido. Estava arrependido daquela idéia que agora me parecia muito fora de moda, mas tinha me comprometido moralmente em não abandoná-lo e deveria levar a história a cabo, ou pelo menos até onde fosse suportável. Tentando dissuadi-lo, sugerindo que ficássemos mais uma ou duas horas, que voltássemos pra casa antes das 10, por que não seria bom que ele fosse deitar com uma puta na noite anterior ao seu casamento, mas ele estava alucinado, olhava para mim com olhos de cão feliz e ria sem entender o que eu falava.

Voltei para o balcão e pedi um copo de conhaque para poder agüentar mais um pouco. Parece que as putas captam a energia sincera e desesperada dos homens. Elas o rodeavam e esbanjavam agrados. Quanto a mim, fiquei no balcão, largado. Aquele disco do Amado Batista já tinha sido virado algumas vezes e me voltavam imagens da infância quando ouvia ‘Sol vermelho’ sem entender o resto da letra, apenas imaginando um maravilhoso pôr de sol numa praia, coisas que tinha visto em cartões postais. Resolvi trocar pelo Vicente Celestino antes que alguém tivesse uma idéia pior.

Quando outros homens chegaram as putas se espalharam e Ernesto veio até o balcão com a boca aberta soltando baforadas e ordenou que eu fosse buscar uma garrafa de uísque na loja do posto de gasolina. Tinha ficado amigo das meninas e elas permitiram esse feito. Foi o que ele falou ‘fomos autorizados a introduzir sub-repticiamente no recinto uma garrafa de malte para o deleite geral dos convivas’. Deu-me duas notas de 10 e me fez entender que o resto ficava por minha conta, afinal ele era o noivo, eu seria o padrinho do casamento, toda essa boa história para justificar mais uma ardilosa extorsão.

– Vou comprar do mais vagabundo.

– Não, não. Compre alguma coisa boa.

– Com todo esse dinheiro?

– Com mais vinte do teu.

– Mesmo assim. Só vai dar pra comprar um mais ou menos.

– Que seja um mais ou menos, mas que seja importado. Vamos beber com classe.

– Estilo.

– Pompa.

– Sim, e bocetas.

Ernesto não gostou muito de ouvir bocetas, não pela palavra, porque era uma coisa que queria muito e que por muito tempo lhe havia sido negada, mas pelo tom de censura com que falei.

– São bocetas de classe.

– Eu sei, por isso vou buscar o uísque. Porque você merece e sou seu amigo, hoje é a sua despedida de solteiro. Eu também estou ansioso, me perdoe, não me leve tão a sério.

Rompecabeza - Cap. III

Antes de chegar à rua já tinha decidido demorar mais do que o necessário para estar de volta. As coisas começavam a balançar dentro de minha cabeça e era difícil não pensar naquilo que a gente sempre tentou esquecer. Havia tanto para esquecer. Tantas coisas que machucaram e fizeram falta, que perdemos por covardia e ignorância, que fugiram, foram embora ou simplesmente deixaram de aparecer. Por que isso chegava à minha cabeça naquela hora não sei. Talvez por causa da música ou das mulheres, ou pelo fato de estar saindo para comprar uísque. Não se bebe assim quando se está em boa companhia. Essas garrafas são boas para quem anda sozinho. Eu estava sozinho e pensar nisso não me deixava bem.

Em vez de descer para a avenida segui pela Conselheiro Mafra. Aquilo me lembrava tanto os velhos tempos que tive vontade de chorar. As putas da ruas eram outras. Eu pensei que elas fossem viver ali para sempre, aquelas que eu encontrava sempre que voltava do trabalho ou quando saia à noite para comprar comida ou para procurar um lugar para me perder. A rua também estava diferente, muito mais limpa e regular. Um trecho fora asfaltado, o outro recebera ladrilhos novos, e o quase todo o casario tinha sido pintado. Continuava bonita, apenas mais bem vestida. Chegando à esquina subi pela Bento Gonçalves, que agora também estava asfaltada e parecia mais larga. Queria ver a casa onde tinha vivido meus anos mais conturbados. Naquela casa vi todos os melhores filmes, li alguns livros e esvaziei uma grande quantidade de garrafas. Naquele quarto ficaram enterradas várias das minhas ilusões e parte da minha grande ingenuidade. Ele ouviu gemido e urros de várias mulheres e depois meus lastimáveis soluços. Foi um lugar para perder. Uma que não sabia mais o que sentia, outra que nem sequer se despediu, e todas aquelas que desprezei, ignorei e descartei. Foi um lugar para ser mau, também.

Parei em frente à casa, no outro lado da rua. Por fora ela continuava a mesma. Melhor que estivesse assim com as janelas fechadas. Desta forma não tomava conhecimento das mudanças do interior e deixava intocado o que estava escondido na memória, o que com o tempo adquiria sempre um pouco mais de brilho. Tudo muda, meu velho, tudo passa, envelhece, pensei, dei meia volta, acendi um cigarro e apalpei o dinheiro no bolso da camisa.

Minhas pernas sabiam de cor o caminho para a loja. Tantas vezes andamos por aqui, tantas vezes fomos buscar bebida de madrugada. A porta automática se abriu e o ar gelado me bateu no rosto. Tirei várias garrafas da prateleira só pelo prazer de tocá-las, como se toca em coisas queridas como máquinas de escrever ou crianças de colo. Um Bells estaria de bom tamanho e o balconista já me estudava desconfiado. Paguei e pedi que embrulhasse em duas sacolas, uma de papel pardo e outra de plástico branco. Ele achou graça, riu com certo descaso, mas como eu mantivesse a cara fechada providenciou o embrulho e entregou-me o troco. Pedi que imprimisse uma nota fiscal e ele ficou sério.

– É que eu trabalho na Justiça e não fica bem andar com uma mercadoria dessa natureza sem o comprovante de minha contribuição do imposto sobre produtos industrializados. Sabe como essas coisas são, não é?

– Ah, sim. O Senhor precisa de mais alguma coisa?

– Não. Muito obrigado.

– Tenha uma boa noite, Senhor. E obrigado. Quando o Senhor precisar… a loja fica aberta 24 horas.

– Eu sei.

– Às suas ordens, Senhor.

– Essa bebida é importada, não é?

– Acho que sim, Senhor.

– Tem certeza que não é paraguaia?

– Oh não, tudo aqui é de boa procedência.

A porta automática se abriu e o bafo quente da rua me bateu no rosto, embaçando as lentes dos óculos. Sentia-me muito bem com os pronomes de tratamento, aquela garrafa apertada sob braço e a rua escorrendo debaixo dos meus pés. Desta vez decidi subir pela Pe. Roma e andei devagar até o final desta rua. Sentei no degrau da entrada da loja de móveis e acendi um cigarro. Destampei o litro e dei um gole. Guardei a garrafa e desci até a Gama D’Eça, andando sempre devagar. No outro lado da rua havia outro posto de combustível. Tudo sempre tão igual, pensei. Fiz o caminho de volta, parando para fumar e cheirar o litro. Se eu continuasse bebendo acabaria esquecendo do Ernesto.

Já passava da meia-noite quando cheguei de volta. Esperava encontra-lo decidido a abandonar a festa e voltar para casa. Imaginei que com minha demora o efeito do álcool em sua fraca cabeça já tivesse passado e o senso de responsabilidade voltado ao seu cantinho. Procurei-o pela sala e no bar, mas nenhum sinal.

– Seu amigo está esperando. Disse que está ansioso pela mercadoria.

– Que mercadoria?

– Essa aí, embrulhada.

– Ah, sim. E onde é que ele está? Estive na sala e ele não se encontrava.

– Claro, você demorou e ele fui trabalhar. A primeira porta depois do banheiro, à esquerda - Piscou um olho pra mim e sorriu. Apertei o embrulho com as duas mãos e levantei-o, e enfiei o nariz dentro do pacote, fuçando como um porco. Ela gargalhou e deixei o bar aliviado. Num sofá uma puta novinha se esfregava num velho sujo. Aquilo me provocou ciúmes.

Oh, você não seria capaz de imaginar que cena triste. Lá estava Ernesto abraçado às pernas de uma puta despenteada e seminua. Ela usava apenas uma calcinha vermelha de renda e uma espécie estranha de meias que chegavam acima do joelho e eram presas à calcinha por barbantes toscos. Ernesto também estava quase nu e derramava sobre a cama toda aquela lírica de romances de capa e espada, vertendo lágrimas e engasgando-se em soluços aos braços da menina.

– Oh meu nobre e estimado irmão, dá-nos de beber do nobre licor gaélico, a mim e à minha nobre dama. Hoje, senhora e senhor, é um dia muito especial…’ e desmanchou-se em soluços e lágrimas. A puta ria sem espanto e lhe acariciava os cabelos.

– Irmão, esta é Brigite.

– Muito prazer, Brigite. Como ele está?

– Muito bem, querido. Qual é a sua graça.

– Não tenho senso de humor.

– Ele não é engraçado, Ernestinho?

– Ele é muito engraçado e se chama Godofredo.

– Deixa disso.

– Tudo bem, ele se chama Ignácio e é meu grande amigo, meu irmão espiritual.

– Quer ser nossa irmãzinha espiritual?

– O que é isso?

– Melhor ser nossa irmãzinha carnal. Muito melhor, não acho Néstor?

– Mamãezinha carnal.

Ela gostou de ser chamada assim. Passou a mão pela fronte de Ernesto.

– Oh, meu amigo é uma gracinha. Meu amigo é um escritor, disse que vou estar no seu próximo livro e que seria sua amante. Mas posso ser mamãezinha também. Quer mamar, neném?

Ele queria e mamou. Ela ria. Eu não sabia o que fazer. Fui até a cozinha e trouxe três copos grandes com gelo. Depois de terminado o nobre licor, dormimos os três, eles na cama, eu no chão. Não fomos ao casamento, nem Ignácio, nem Ernesto, nem Brigite.

Agora eu tento rir de tudo isso, mas talvez devesse desmanchar-me em lágrimas. Nossas vidas continuam a repetir desgraças. A construção que não anda, o casamento que não acontece. E você chegando em Montevidéu, aquele largo sorriso de turista filho da puta na cara. Ah, Montevidéu do porto sujo, da cachaça quente, das bodegas fedorentas, as putas de bocetas cabeludas. Mas você não vai ver nada disso porque é um turista asseado e garboso, de hotéis perfumados e camareiras de cabelos alinhados, cafés da manhã com guardanapos de pano e música clássica nos elevadores e na sala de leitura.

Rompecabeza - Cap. IV

No dia em que recebi sua carta contando que chegava em Santiago (atente para a simultaneidade – isso poderá ser proveitoso para a sua teoria – eu lia os últimos poemas do Neruda e acabava de copiar um deles para minha caderneta; falava assim ‘quero saber se você vem comigo, a não andar e não falar, quero saber se ao fim alcançaremos a incomunicação…’, e havia outros, igualmente bons, alguns que falavam da Santiago), naquele dia nos encontramos para a embriaguez inevitável, eu e Ernesto, no Café Matisse, aquele maldito lugar, detestável arroto burguês, bebidas caras e velhas de unhas pintadas, e ele me falava dos preparativos para o casamento e de sua inacreditável sorte no amor. Eu remoia aqueles versos do poeta e engolia cerveja e conhaque – tocava um jazz meloso demais para ser suportável por mais de dois minutos – e Ernesto louvava sua mui querida e amada, gabando-se dos orgasmos e dos sonhos. ‘Andamos enlaçados pelos ombros pela sombra das palmeiras… Eu lhe disse: Vamos casar, não? Ela riu-se satisfeita e no mesmo tom disse: Perto de uma cachoeira, com arranjos de ikebana, etcétera…’ E, por favor, não faça troça porque este é o prelúdio da tragédia. Eu só pensava na companhia silenciosa do Neruda, na total incomunicação e que, de certa forma, aquilo estava acontecendo ali mesmo, naquela mesa de café. Terminado o relato das venturas amorosas ele riu de felicidade e eu ri porque sabia que não estávamos nos comunicando de forma alguma, apenas sonhando cada um seu sonho, estendendo de vez em quando uns tentáculos tímidos, testando a extensão de nossa incapacidade. Sim, você sabe, além de tudo sou inescrupuloso, falo dessas coisas como se lesse uma notícia de jornal em voz alta em praça pública.

E depois a noitada na zona com Brigite e o dia seguinte a cachoeira suja com pratos de plástico, cobertura de bolo e os arranjos de ikebana destruídos, pessoas desnorteadas e incrédulas, calmantes e queixas na polícia. E você já tinha deixado a cidade dos prédios imponentes, cidade dos falos gigantes. Você seu turista. E nós que nos vamos destruindo nesta cidade de merda que é Desterro. No fundo, bem que merecemos.

Agora ouço Liszt como quem disso fosse digno. Lembro das últimas semanas com Gaviota, quando descobria que ela não me suportava mais. Andava reclamando que eu só pensava nos tijolos e não me importava com ela. Que era um puto individualista e que nossas vidas vinham antes da construção, que eu estava sempre aberto a receber mas não queria dar nada em troca, que aquilo era injusto, etcétera. Depois se desculpou por ser tão sincera. Eu tinha me achegado tão carinhosamente, falei-lhe que tinha ficado mui contento por encontrá-la, que o dia ficava mais bonito com ela e toda aquela retórica salafrária, mas ela não me perdoou, disse-me todas essas coisas e muito mais que já esqueci. E eu ainda acreditava que estava agradando. Falava-lhe de Van Gogh e Gauguin, ela dizia que admirava minha inteligência, então eu tirei a roupa e fiquei nu sobre a cama, o pau ereto, ela começou a falar de seus planos e eu pensando que talvez o sexo fosse uma saída satisfatória para esta sinuca, a única maneira de nos entender e entrar em comunhão, em sintonia, mas ela insistia no uso da comunicação verbal e queria saber qual era a minha opinião sobre as decisões que ela queria tomar. Impacientei-me e só consegui magoá-la com respostas estúpidas, enquanto meu falo declinava murchando. Somos tão machos e individualistas, você bem sabe.

Foi aí que ela voltou mais uma vez aos tijolos para que eu aprendesse por repetição. Falou mais uma vez que eu não dava atenção para seus problemas. Pobre incomunicável sou, só pude ficar quieto e esperar que ela se acalmasse para depois dizer que ela estava com toda a razão, vestir minhas calças e pedir que abrisse a porta da rua. Não tive coragem para mais nada. Eu sou um verme miserável. Vil, mesquinho, desprezível, infame. E sobre o assunto é tudo o que tenho a falar.

Agora estou tão sentimental que me vejo obrigado a pedir desculpar por lhe ter insultado com a história do turista filho da puta. Estou tão comovido que não seria capaz de esmagar um cupim sem sentir a culpa dos impostores e covardes. Perdi o que tinha, não consigo prosseguir com as reformas, Ernesto não casou, está sem comer direito, trancado em casa sem falar com ninguém. Acho que tudo é culpa minha. Estado lamentável este, meu irmão, bem sabes. Melhor terminar esta carta de uma vez.

Melhor voltar ao jardim, arrancar algumas ervas, recontar os tijolos, tirar esse disco da vitrola, preparar o almoço em silêncio e comer sozinho. Sim, sozinho como hei de viver e morrer, porque é isso que mereço, eu e os tijolos que me entendem e a construção por começar, Ernesto agarrado eternamente às pernas de uma puta de plástico, você eternamente numa balsa, entre o continente e uma ilha deserta no pacífico, ou em Buenos Aires ou Montevidéu, naquele quarto sempre limpo e arrumado, pensando em como seria bom dormir com a camareira, enviando postais aos amigos na Ilha, cada um em seu próprio mundo e em sua indelével solidão, na total incapacidade de se libertar do casulo da vida ordinária, sem nunca poder nos compreender e aos outros.

Me ha tocado deshacer el rompecabezas de mi vida y volverio a armar. Oye! se me esta acabando el tiempo! Me tengo que ir.

outubro no peri